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Coluna Ingo Müller | A mesa vazia da virada

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Meu micro-ondas pifou. O aparelho pediu arrego após requentar tantas vezes os pratos que sobraram da celebração do natal. Pobrezinho, não aguentou a pressão de transformar as sobras da ceia do sábado no almoço do resto dos dias da semana.

Longe de me importar em consumir o popular R.O (“resto de ontem”), fico é muito feliz por ter tido uma festa farta, regada a alegria e boa comida. Em vez da repetição do sabor, o que me preocupa é a banalização do fato de que essa fartura é uma exceção em um país onde a redução do poder de compra afetou diretamente o que vai na mesa da população.

Dados do IBGE divulgados este ano apontam que entre 2017 e 2018 pelo menos 41% dos brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar. O índice – que é uma forma elegante de falar que essas pessoas passaram fome – é maior que o da Venezuela, que segue sendo o espantalho preferido da direita brasileira.

A fome retratada pelo IBGE é algo muito diferente da sensação que a gente tem quando a barriga ronca. Enquanto problema social, fome não é só necessidade de comer – é não ter perspectiva de saciar esta necessidade, não ter certeza de quando poderá ser a próxima refeição e se ela será suficiente.

Outro levantamento, desta vez da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (RBPSSAN), indicam que 55% dos brasileiros não conseguem fazer três refeições por dia. Segundo esta pesquisa, o número de pessoas que sofrem de incerteza quanto a quantidade e qualidade dos alimentos consumidos chega a 116,8 milhões; e 19 milhões de brasileiros passam por privação extrema, chegando a não ter o que comer não só no natal… mas durante o ano todo.

Entenda, leitor, que a questão aqui não é falta de caridade. Não adianta, em uma escala macro, as famílias que tem fartura em casa dividirem seus pratos nos dias de festa com quem tem menos, porque pobre sente fome todo dia. O que a gente precisa não é de partilha, é de política – é ter ações do poder público que vão além da caridade, para garantir a dignidade para a população.

A pesquisa da RBPSSAN aponta que a situação da fome apertou no país entre os anos de 2018 e 2020, quando a quantidade de famílias famintas aumentou mais de 27%. Duas coisas ocorreram neste período: a pandemia e a inflação dos alimentos puxada desvalorização cambial, que fez com que o agroexportador ficasse de bolso cheio enquanto o pobre tava de barriga vazia mesmo com o pagamento do auxílio emergencial, que foi insuficiente para prover para os mais necessitados, em especial as famílias chefiadas por mulheres e negros.

Com o fim das parcelas do auxílio, a gente tem que se questionar como socorrer essa população que desesperadamente precisa de ajuda. Desde novembro, o Governo Federal extinguiu o Bolsa Família, que existia desde 2003, para implantar o Auxílio Brasil – um programa que, a despeito das urgências da população, me soa eleitoreiro: é como você pegar um cara chamado João e rebatizar ele de Jair porque o nome lhe apetece mais.

Relevando isso, a gente pode até pensar que a iniciativa é boa, já que o teto do benefício sobre para R$ 400, apesar dos protestos do ministro da economia. O problema é que, tal qual verdura da xepa, o Auxílio Brasil tem validade curta: a canetada que o criou estipula pagamentos até dezembro de 2022. Resta saber como o ocupante da alvorada em 2023 – seja quem for – vai atuar nesta questão para garantir comida na mesa dos pobres após a virada do ano que vem.

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