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Coluna Ingo Müller | Nos moldes do Brasil colônia: o novo ensino mé(r)dio

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Minha filha começou a estudar essa semana, o que me enche de orgulho e preocupação. Orgulho porque uma das maiores alegrias de um pai é ver seus filhos caminharem com as próprias pernas, e preocupação porque a gente não sabe aonde essa estrada vai levar. E quando me refiro a estrada não falo numa simples escolha de carreira – porque a minha filha vai ter liberdade pra ser o que quiser –, mas para o tipo de educação que ela vai receber no caminho.

É que a minha neném começou a vida estudantil no mesmo ano em que passa a valer uma reforma profunda na educação Brasileira, o tal do “novo ensino médio” – um projeto que de novo só em o nome, já que suas práticas direcionam o país pra segregação e pro atraso, bem nos moldes do Brasil colônia.

Explico: a proposta implementada em 2022, que foi sancionada ainda na gestão Temer, alega ter por objetivo dar mais autonomia para o estudante, aumentando a carga horária ao mesmo tempo em que flexibiliza o currículo para que o aluno possa construir seu projeto de vida enquanto ainda está na escola. Parece bom, né? Só quem conhece a realidade da educação brasileira e não fecha os olhos para a brutal desigualdade deste país enxerga além da apresentação pomposa disponível no site do Ministério da Educação, e aí os problemas começam a aparecer.

O primeiro deles, e mais óbvio, é achar que o adolescente médio de 15 anos tem condições de tomar uma decisão que vai impactar no seu futuro estudantil. Vamos pensar na quantidade de jovens que chegam no momento da inscrição do Enem sem saber o que querem fazer da vida, ou mesmo das pessoas que cursam uma universidade e largam o curso no meio… como fica a situação desses tantos brasileiros, que desejam uma mudança ao longo do caminho?

A outra é pensar, também, na situação de todos os estudantes que não conseguem concluir o EM de forma tradicional. O ensino médio muda, mas e o EJA? Considerando que tanto concluintes do Ensino Médio egressos do ensino de jovens e adultos podem tentar uma vaga no ensino superior, teremos dois públicos com formações radicalmente diferentes. Não me entenda mal, a metodologia do adulto já é diferente da aplicada aos jovens… mas com a introdução da BNCC com a reforma do ensino a diferença não será só do método, mas da formação como um todo.

Por fim, além de pensar na diferença entre os alunos, vale lembrar que nós temos um país com diferentes tipos de escolas, e essas diferenças promovem um abismo entre escolas particulares voltadas para elite – com mensalidades que superam o salário de um trabalhador – e colégios precários da rede pública espalhados pelos rincões do estado, dos bairros mais periféricos até a zona rural desse gigantesco Pará em que vivemos.

Vocês acreditam, mesmo, que nessas escolas paupérrimas – onde o aluno tem sorte se tiver carteira pra sentar, água pra beber e um teto sobre sua cabeça – o corpo docente vai ter condição material de trabalhar os itinerários formativos de maneira conjunta, como sugere o governo? Acorda! Estamos falando de escolas onde o professor, quase um herói, tira dinheiro do bolso pra bancar xerox de apostila.

Diante de tantos “poréns”, não é difícil saber o que vai acontecer: a rede pública não vai poder ofertar o mesmo leque de opções dos colégios particulares e, enquanto os alunos da rede privada terão um amplo leque de itinerários formativos à disposição, aos estudantes vindos de famílias mais pobres sobrará a opção pela educação profissional, agora incorporado ao currículo escolar através desta reforma. Vamos naturalizar a formação de mão de obra desde tenra idade.

Está criado o sistema de castas do Brasil, porque quanto mais periférico for o espaço do estudante menos opções ele terá para o futuro – aí a educação deixa de ser algo transformador para virar ferramenta de manutenção do status quo que, convenhamos, só serve aos poderosos que podem manter seus filhos como eternos membros da elite graças a sua riqueza geracional – e essas pessoas, para aliviar suas consciências, vão reproduzir o discurso vazio da meritocracia, enaltecendo seus feitos sem enxergar a barreira imposta para todos que não tiverem o sobrenome certo.

É desta forma que a reforma vai perpetuar as desigualdades. Vamos ter um foco na educação profissional para jovens de baixa renda, formando mão de obra que aqui é barata para que o pobre, em vez de alargar seu horizonte, continue como um pobre útil ao mercado.

Vendo a disseminação de cultos de ignorância, que usam a falta de conhecimento para propagar teorias da conspiração, fico pensando como seria bom, no futuro, ter todos os jovens com uma base científica sólida e cabecinhas afiadas para interpretar textos e fazer a leitura correta do mundo. O novo ensino médio, ao separar os caminhos dos estudantes, me tira as esperanças de que isso ocorra no futuro – vamos ter uma geração de presas fáceis para o terraplanismo, o movimento antivacina, o design inteligente e outras sandices infundadas que se nutrem do medo e da desinformação.

Lógico que o ensino precisa de mudança, mas não uma revisão – uma REVOLUÇÃO, mesmo. E o primeiro passo, antes de mexer na estrutura do currículo, é garantir condições e educação de qualidade disponível para todos – e o primeiro passo pra isso, creiam, é remunerar adequadamente os professores para que eles possam conduzir, em cada sala de aula, a mudança que esse país precisa.

Pena que o educador mais revolucionário do Brasil, que é aplaudido e estudado lá fora, aqui foi perseguido e hoje é criticado por pessoas que sequer leram as orelhas dos seus livros – ao menos essas criaturas confirmam (ainda que involuntariamente) quão Freire estava certo ao afirmar que sem uma educação libertadora o único sonho do oprimido será ser, ele próprio, o futuro opressor.

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