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Coluna Ingo Müller: O que esperar de 2022 (não espere muito, viu)

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O ano novo já começou com uma grande decepção: não consegui acertar um número sequer da mega da virada. Nada, nem um duquezinho pra dar esperança, nem aquele proverbial “saiu 12, eu tinha marcado 11”. Minha aposta foi só um desperdício de dinheiro, que serviu para alimentar por um par de horas os sonhos com a fortuna que não veio.

Qualquer economista que preste vai te dizer que bilhetes de loteria são péssimo investimento, mas esse é um pecado que eu me permito pelo menos uma vez ao ano. E pelo jeito muita gente pensa igual, já que uns 6 milhões de Brasileiros jogaram na loteria cobiçando o maior prêmio da história. Como a bolada saiu só pra duas pessoas e eu me encontro entre os 5.999.998 apostadores restantes, o jeito foi iniciar a primeira semana do ano pensando nas contas e boletos.

Aliás, nesse começo de ano conta e boleto é o que não falta. A fatura de dezembro quebra na nossa cara feito uma onda salgada do Atalaia e, não bastasse termos de lidar com as consequências da nossa irresponsabilidade financeira nas festas do fim de ano, ainda tomamos caldo de um verdadeiro tsunami de cobranças que inclui IPVA, licenciamento do carro, IPTU, seguro da casa, do carro e o material escolar da criançada – sem falar nas despesas fixas com moradia, luz, alimentação… e ai de ti se pegar virose, porque a cada ida na farmácia lá se vão cem reais, fácil.

Pior é que não vejo, num horizonte próximo, um sinal de melhora após a gente pagar essas contas todas. Desculpa, leitor, mas tudo indica que 2022 vai ser um ano meio merda mesmo. Duvida? Então olha só:

1) A covid ainda tá ai

A pandemia não acabou, e embora as vacinas tenham dado uma proteção coletiva considerável em relação ao tenebroso 2020 ainda existe muita desigualdade na distribuição das vacinas ao redor do mundo – enquanto tem gente falando na quarta dose de reforço, tem país que sequer concluiu a campanha da primeira etapa. Essa desigualdade propicia o surgimento de variantes que podem colocar todo o esforço vacinal a perder, e ainda causar infecções cruzadas com outros vírus da gripe criando um Megazord de doença. Pra completar, pior que a falta de acesso e a falta de noção: tem lugares onde há vacina e as pessoas simplesmente se recusam a toma-las… como aqui no Brasil, onde de vez em quando aparece um zé ruela com esse perfil. A gente ainda vai ter que brigar muito pra ter vacina pra todo mundo, já que vivemos em um país em que pessoas antivacina ganham cargos no governo em vez de humilhação pública.

2) A economia está uma droga

Tivemos um ano com inflação na casa de 10%, e para 2022 o COPOM traçou a projeção otimista de 4,7% de inflação. Isso significa que, a menos que você faça parte de uma categoria com sindicato forte e articulado, cujo acordo coletivo preveja reposição imediata da inflação, vai ter uma perda de até 15% na renda só somando os últimos dois anos. Se a gente puxar a inflação desde 2018, a retração podem chegar em até um terço dos seus ganhos. Traduzindo em de forma simples, isso significa que quem pegava Uber antigamente vai ter que RODAR de Uber pra poder fechar o mês com as contas em dia.

3) Começa o desmanche da educação

2022 marca o começo do projeto do “Novo ensino médio”. A proposta flexibiliza o currículo escolar através da desculpa de que agora o jovem poderá ser protagonista da construção do seu aprendizado. Veja bem: adolescentes vão ter de decidir o que estudar. É um bonito slogan, mas quem escreveu isso, imagino, tem pouca noção de como funciona a cabeça de um adolescente. Por mais otimista que seja o FAQ do governo sobre o assunto, especialistas em educação apontam que a possibilidade de misturar o ensino técnico com a formação escolar vai criar uma geração de jovens operários, mas sem pensamento crítico para fazer a leitura correta da realidade. Ou seja, nossa juventude sairá da escola do jeito que o mercado quer: trabalhando muito e pensando pouco. Conhecendo um pouquinho do nosso país, duvido que o filho do banqueiro vá optar pelo ensino técnico, então na prática é como se a gente tivesse criando um sistema de castas na escola, que em longo prazo pode contribuir pra manutenção do status quo através riqueza geracional, cavando um abismo ainda mais profundo que o já existente entre alunos de escolas públicas e privadas.

4) É ano de eleição

Pra muita gente a virada do ano trouxe esperança de renovação política, já que estamos em ano eleitoral, mas a mudança que vier só terá efeito em 2023. Para 22, vamos ter um caminho bem complicado antes de enxergar qualquer luz no fim do túnel: se preparem pro pleito mais sujo da história. Vai ser chuva de fakenews, postagem de robô em rede social, uso de máquina pública para incitar crime e propaganda irregular – um combo de delitos com nosso dinheiro e contra a nossa paciência, mas se tudo der certo até a eleição de 2030 o TSE resolve fazer alguma coisa contra os crimes eleitorais digitais. Pena que quando definirem algo o fundão vai ter  mais verba que a saúde e educação (combinadas) e os robôs já devem ter migrado pro metaverso do Zuckerberg.

5) Vamos passar vergonha na Copa do Mundo. De novo.

Vamos aguardar até novembro pra ver a seleção entrar em campo no Qatar com Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Sem condições.

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