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Coluna Ingo Müller | Os sommelier de vírus e a vitória da coletividade

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Nos meus grupos de what’s app, o assunto da vez é Covid. Não que a doença estivesse ausente dos debates – na verdade, permanece como assunto recorrente desde o surgimento dessa praga -, mas é que desta vez a turma trocou o compartilhamento de notícias da pandemia pela troca de experiências pessoais, já que a maioria teve contato imediato com o vírus neste começo de 2022.

Quase todo dia aparece um falando “pessoal, positivei”. Entre suspeitos e confirmados, praticamente todo mundo já passou pela experiência da pandemia em primeira mão, com realização de exames e espera de resultados para, enfim, se resignar com a quarentena. Para aliviar a tensão, fazemos piadas sobre como a coleta de material com aquele cotonete que entra pelo nariz parece cutucar o nosso cérebro, e relatamos nossas experiências com o isolamento domiciliar – as séries que assistimos, os livros que lemos e as saudades que sentimos.

O que ocorre no nosso zapzap é um reflexo de uma tendência global: o mundo registrou recorde de casos de covid, com mais de 3 milhões de casos em 24 horas. Esse aumento das infecções é puxado por países como EUA e Brasil. Segundo o Imperial College de Londres, a taxa de transmissão de Covid por aqui é de 1,35 – Isso significa que cada 100 pessoas  doentes contaminam cerca de 135 sadios.

É muito. Em uma escala macro, podemos afirmar que essa progressão bota um estresse enorme no sistema de saúde e, se não for contida, pode levar os hospitais ao colapso – aqui em Belém já percebemos o começo disso nas filas das unidades básicas de saúde e na dificuldade de conseguir fazer testes para confirmar a doença.

Já no nosso universo particular, significa que quase todo mundo que a gente conhece teve a doença ou conhece história de quem ficou doente, ao ponto de compararmos os sintomas das diferentes variantes que pegamos com a mesma naturalidade de quem fala de artigos de feira.

“Ah, minha garganta está arranhando”, diz um dos infectados. “A minha também. Uó”, comenta outro. “Vocês sentiram dor de barriga? Quando eu peguei ano passado eu tive”, relembra um terceiro. “Não, dessa vez não tá dando. Mas tive febre”. “Pelo menos não deu aquela dor nos olhos que era comum na primeira temporada, né?”. “Fato, aquilo era horrível”, recorda o terceiro. “Vocês não sabem de nada, quando eu tive gripe suína no surto de 2009 foi bem pior. Era febre o tempo inteiro”, acrescenta o hipster viral, que se contaminou numa pandemia antes de ser moda.

Não se trata de banalizar a doença, mas de perceber como ela já está inserida ao nosso cotidiano. Com a rápida transmissão da variante ômicron, a Covid se tornou, tristemente, um fato da vida. Seguimos lutando contra ela e, embora a maré inimiga seja grande, estamos firmes. Graças às vacinas, podemos passar por esta onda com muito menos risco de vida: apesar do recorde de infectados, a taxa de óbitos é muito interior ao que foi registrado no ano passado. Querem prova maior que as vacinas, mais do que nunca, salvam vidas? De que ao pensar nos outros conseguimos, também, nos salvar?

O avanço da imunização é uma vitória da ciência e da coletividade, ratificando algo que a própria evolução comprova desde os tempos que os primeiros hominídeos andaram juntos: só conseguimos sobreviver se cuidarmos uns dos outros. 

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