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Coluna Ingo Müller | Não olhe para cima, olhe para dentro

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Pouca gente percebeu na hora, mas na véspera de natal a gente ganhou um presentão: o filme “Não olhe para cima”, uma sátira política afiada que chegou na Netflix e, desde então, se transformou na obra de ficção mais comentada da internet desde aquela época  em que todo mundo se interessava pelos seriados coreanos por causa de Round 6.

Caso você ainda não tenha assistido ao longa (o que eu duvido), basta saber que a trama segue o calvário de dois astrônomos que, após descobrirem que um cometa vai se chocar contra a terra e iniciar um evento apocalíptico, precisam lidar com a incompetência dos líderes mundiais e indiferença da população diante de algo capaz de exterminar as suas vidas.

O filme foi obviamente inspirado no legado intelectual da gestão Trump nos EUA, mas como o governo do Brasil segue a mesma cartilha ideológica (e teve até o mesmo marqueteiro) a história do meteoro poderia facilmente acontecer aqui, abaixo da linha do equador.  É impossível não traçar paralelos entre os personagens da ficção e pessoas reais que tentaram salvar vidas durante a pandemia de covid enquanto o governo fazia graça com a nossa cara.

É tão real que chega a ser desesperador. De fato, o filme está classificado como comédia, mas bem que poderia ser considerando documentário tal a fidelidade que retrata as ações de um governo omisso e o pensamento da parcela negacionista da população. É chocante, mas absolutamente verossímil, perceber como a ciência ficou para escanteio em detrimento da futilidade e das verdades pessoais dos especialistas formados pelo whatsapp.

Só que apontar a postura anticientífica dos ativistas antivacina é fácil, como é fácil reconhecer a sandice do discurso de quem acredita em terra plana, no design inteligente e em teorias da conspiração como o QAnon. O desafio é a gente usar o mesmo critério para combater as pseudociências que se enraizaram no cotidiano e que, embora não tão danosas quanto ignorar um meteoro, podem sim ser uma pedra no sapato do progresso da sociedade. Duvida?

Vamos falar da astrologia, por exemplo, que foi separada da ciência desde Kepler lá no século XVII. Apesar de apontada por qualquer pesquisador sério como pseudociência, ainda tem muita gente que leve a sério, ao ponto de ser considerada critério para avaliar a viabilidade de relacionamentos amorosos e até de contratações para emprego.

Recentemente, no julgamento da boate Kiss, um advogado teve o disparate de fazer a leitura de uma carta psicografada, que não deveria ter lugar na casa das leis por ferir um dos princípios básicos do direito – de que falar e não provar é a mesma coisa que não falar. Ainda assim, há quem considere este tipo de “evidência” como prova documental, embora seja impossível provar a existência de espíritos capazes de escrever cartas.

Ainda tem o caso da homeopatia, que administra água pura com supostas propriedades curativas e, apesar de ter sido abandonada até pelo agregado José Dias no seu leito de morte, ainda persiste mais de cem anos após esta chacota. Eu poderia seguir citando exemplos, mas acredito que o leitor já entendeu que, além da ultra-direita aloprada e conspiracionista, existem vários processos e pensamentos não científicos enraizados em diversos setores da sociedade, incluindo os que se denominam progressistas e liberais.

A imprensa, claro, também tem sua parcela de culpa toda vez que dá eco para a voz de um vidente, como é de praxe nas pautas batidas de “previsões” para o ano que vem. Aliás, recentemente deram destaque até para os escritos Baba Vanga, morta em 96, e cujos registros vagos podem se enquadrar em “N” situações ao redor do globo – mas basta uma coincidência para algum emocionado se impressionar com a veracidade de suas previsões.

Não se trata de ignorar o aspecto cultural de uma população, nem a herança de sua ancestralidade. A ciência reconhece a eficácia da copaíba e da andiroba, e devemos aos indígenas o seu uso – alopatia, afinal, é a medicina natural que passou pelo crivo do laboratório.

Da mesma forma, não vamos deixar de nos emocionar com as procissões do Círio ou pedir o seu cancelamento, mas entender, de forma racional, que ao colocar no ar uma entrevista de uma pessoa que disse que se curou de alguma moléstia por conta de uma promessa a Nossa Senhora é uma mensagem que pode reforçar a atitude de pessoas que abandonam tratamentos, da mesma forma que vimos pastores aplicando “vacinas da igreja” contra a Covid. Não se trata de renegar a fé, mas de entender que ela não deve entrar na escola, na câmara e no laboratório, da mesma forma que a ciência pode fazer a curva diante da porta dos templos.

A minha provocação, aqui, é a pra gente rever a presença indesejada das crendices no cotidiano, e a naturalização de algumas pseudociências na nossa rotina. Devemos entender que a roupa que vamos vestir na noite do dia 31 não vai mudar em nada a nossa vida e, ao deixando pra trás esse conjunto de crenças inúteis, ter a lucidez de que o futuro é nossa responsabilidade – aí podemos tirar, então, a culpa dos astros inocentes e colocar a mão na massa, que tal?

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